JOVEM SE SUICIDA E DEIXA CARTA DE SUICÍDIO , TRAGÉDIA !!
JOVEM SE SUICIDA E DEIXA CARTA DE SUICÍDIO , TRAGÉDIA !!
13/02/2019 às 11:57

Uma carta de suicídio no Facebook…

Motivo? Porque eu achei necessário. Não só para falar de mim, mas para falar algumas coisas que as pessoas não estão se dando conta sobre suicídio. Alerta de textão informativo junto (quase um TCC ushuahsua)

A certeza de que eu morreria pelas minhas próprias mãos nasceu comigo, as coisas que ocorreram entre meu nascimento e o dia de hoje só determinaram quando isso aconteceria. Lembro de ter 13, 14 anos e as ideações suicidas já estavam lá.10 anos depois e nada mudou, sinto que o que fiz até agora foi apenas adiar o inevitável. Sempre deixei a ideia ali guardada, pra quando eu não aguentasse mais viver ter uma forma de escapismo eterna. E eu sabia que um dia eu não aguentaria mais, porque viver, pra pessoas como eu, é pesado e dilacerante. Não que pra alguém seja fácil, mas pra uns é mais suportável, não é meu caso. Eu sou uma dicotomia ambulante, dentro de mim há uma constante briga entre 2 opostos. Tem um lado meu que me ama, me venera, que valoriza todas as minhas habilidades e que me acha uma pessoa incrível, narcisismo puro. Mas tem um eu dentro de mim que me odeia. Me auto sabota todos os dias, me faz acreditar que eu não mereço ser feliz, me faz crer que sou problemático demais pra ser verdadeiramente amado. Às vezes me pergunto qual a sensação de viver sem ser assim? O quão leve deve ser deitar e conseguir parar de pensar. Eu penso demais, sobre tudo e o todo o tempo, meu cérebro não desliga pra nada, penso meticulosamente em coisas que eu nem queria pensar. E isso é horrível, porque aumenta a racionalidade exacerbada que eu tenho quando não estou em crise. Por outro lado, eu tenho uma sensibilidade gigante que quando estou em crise é elevada à enésima potência, e isso dói muito. É como se racionalmente eu tivesse a capacidade de compreender o mundo e cada uma das pessoas de uma maneira muito mais nítida e óbvia do que as pessoas normais, mas emocionalmente eu não tenho a base necessária pra aguentar a carga que essa compreensão toda me traz. E aí eu surto, e não é pouco. Cada surto é como uma morte lenta e dolorosa.
Outro fato é que não consigo gostar de uma vida comum, preciso sempre de novas emoções, novas experiências, em 50% do meu tempo eu estou provocando sentimentos em mim mesmo e nos outros, e nos outros 50% do meu tempo eu estou tentando lidar com as consequências disso (que geralmente são péssimas). Eu nunca consegui entender como alguém consegue ser feliz tendo uma rotina, acordando, desejando bom dia, trabalhando, namorando, estudando, socializando. Como as pessoas não ficam entediadas com isso? Como não buscam algo de extraordinário? Se até o extraordinário me entedia! Pra mim é assim, eu consigo uma coisa e 5 minutos depois já não tem a mesma importância, preciso de algo novo, pra assim que eu conseguir, 5 minutos depois também já não ter mais tanta importância. Acredito que as únicas sensações eternas e latentes em mim sejam a de tédio, a de vazio e a de dor que esse vazio me causa. De resto, vou do céu ao inferno em 1 hora. Sou capaz de experimentar todo o espectro de sensações humanas em 1 só dia. E isso cansa. Pensar de mais cansa, sentir demais esgota. Ser demais uma hora da vontade de simplesmente não ser mais.
Tudo o que fiz pra sobreviver até aqui foi utilizar mecanismos de defesas, válvulas de escape, formas de fuga da realidade. Então pra quem chegou a me conhecer, qualquer versão de mim que não seja a de um guri fodidamente depressivo e com transtorno de personalidade, com desenvolvimento emocional digno de uma criança de 10 anos e com pavor de ser abandonado/rejeitado, era escapismo puro. Provavelmente era alguma das 1001 versões irreais de mim que eu criei pra não ter que encarar a realidade. E acredite, mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira. Eu tinha vergonha de assumir minhas fraquezas, e não nego, se eu optasse por continuar vivo não as assumiria. As pessoas são desinformadas, cruéis ou as vezes as 2 coisas juntas. Aos 45′ do 2º tempo eu assumi pra alguns amigos meus, e acredite: poucos sabem lidar. Uns correm, outros se retraem, outros usam o fato de você ser “transtornado” pra justificar os vacilos deles mesmos contigo. Se 1 escolher ficar é muito. Eu imaginei que seria assim, por isso tive receio de exteriorizar antes. Logo eu, que sempre fui um ótimo psicólogo pros meus amigos, logo eu que sempre escuto “nossa.. queria ter o Q.I que você tem, que inteligência!”. Logo eu que sou autodidata em psiquiatria. Hoje afirmo que todo esse conhecimento de nada adianta se você não pedir ajuda quando não consegue mais seguir sozinho. Sabe o que esse conhecimento me traz hoje? Raiva, por saber de tudo que eu sei e ser incapaz de me controlar durante uma crise, ser incapaz de viver, ser incapaz de pedir ajuda. Pra quem é como eu e está lendo isso: não é vergonhoso gritar por socorro, não é vergonhoso ter depressão, ter TPB ou qualquer outro transtorno não faz de você menos inteligente ou um profissional ruim, muito pelo contrário, na reta final conheci pessoas como eu que são excepcionais e que merecem o mundo. Vergonhoso é se enfiar no rio de merda que eu me enfiei e não ter mais por onde sair.
O que também acaba comigo, é que embora eu tenha reais motivos para estar triste, eu não precisaria deles. Minha essência é assim, é a tristeza pela tristeza, a dor pela dor; como diria Schopenhauer “a essência da existência é a dor”. O que me destrói é saber que eu vivi um total de 9.249 dias de vida, e que eu poderia viver mais 9.249 e não acharia nada que trouxesse sentido pra minha existência. Eu fiz 5 anos de graduação no curso que eu sonho desde pivete, e isso hoje me é indiferente. Fiz cursos de extensão na área que eu amo e nada disso me entusiasma. Sei que vivo, eu teria uma carreira brilhante pela frente, seja na magistratura criminal ou como advogado criminalista, me sairia muito bem em qualquer uma das carreiras. Mas isso não me motiva. Vejo meus amigos que se formaram, cheios de dúvidas e expectativas, e eu não. Porque o que me incomoda é a certeza. Certeza de que assim que eu começasse minha carreira, nos primeiros 5 minutos eu iria enjoar, me entediar, e me questionar “é pra isso aqui que você ficou vivo? Toda dor diária é pra isso?”. Não me parece ter sentido, mesmo sendo meu sonho. Aliás, carrego comigo milhares de sonhos e uma lição: definitivamente sonhos não são o suficiente pra manter viva uma pessoa como eu.
Por todo o exposto, há mais de 3 meses planejo meu suicídio. Incluindo neles 2 tentativas. Acredite, quando uma pessoa tenta se matar (independentemente das razões pelas quais não conseguiu) é frustrante demais. A ressaca moral que vem depois, a sensação de impotência, inutilidade e fracasso que vem depois é enorme. Então poupe quem passa por isso de julgamentos. A vida com essa pessoa já é dura o suficiente a ponto de ela não querer mais viver. Julgamentos não ajudam, uma palavra de conforto sim. Desde que decidi que o momento era esse, eu, que sempre fui um apreciador nato do comportamento humano, fiz do meu plano suicida uma espécie de experimento. A conclusão foi o óbvio: suicídio é um tabu, as pessoas não estão dispostas a aprender sobre ele, e o nível de ignorância é absurdo. Há 12 dias, eu ouvi a seguinte pérola de uma amiga que também tem depressão: “quem quer se matar se mata, não fala que vai fazer, isso não existe”. Bom, fico feliz que agora ela sabe que existe kkk (ironia), porque isso é uma das maiores falácias sobre suicídio, e se uma pessoa depressiva, que tem amigos potencialmente suicidas pensa assim, imagina o que os outros não pensam?? É mais do que necessário passar a tratar o suicídio com zelo e atenção, além de elaborar políticas públicas pra que a prevenção se torne mais eficaz. Vai falar de prevenção pra alguém que chegou no nível de determinismo que eu cheguei, a pessoa vai rir. Eu só estou falando aqui sobre prevenção porque há pessoas que, diferente de mim, não querem se matar, querem ser notadas e ajudadas. Já passou da hora de entender que a prevenção ao suicídio começa muito antes da pessoa tentar contra a própria vida. O que vem depois disso é desespero. E desespero com alguém que já está desesperado nem sempre funciona. Prevenção ao suicídio começa na infância, quando você se preocupa em ouvir seu filho, quando você observa o comportamento dele e faz o necessário pra ajudar no primeiro sinal de que algo não está certo. Prevenção ao suicídio começa quando você ensina pra ele que todos somos diferentes e que há beleza dentro de nossas peculiaridades, quando você ensina a não praticar Bullying e a respeitar os colegas e professores. Prevenção ao suicídio começa quando ele chora porque levou um fora e você explica que tudo bem, que faz parte da vida, ao invés de ajudar a reforçar a ideia de que ele é um frouxo por não ter conseguido o que queria (e que não dependia só dele). Começa quando sua filha chega falando que foi assediada e você corre atrás pra saber o que aconteceu e tomar as medidas cabíveis ao invés de culpa-la. Começa quando você acolhe seu filho com as diferenças dele, ao invés de colocá-lo pra fora de casa por ele ser diferente daquilo que você almejou um dia (lembre-se que muitas vezes você não é o pai/mãe que ele sonha ou que merecia). Prevenção ao suicídio começa quando você percebe que um amigo não está bem e tira 1 hora do seu dia pra uma conversa. Começa quando você está disposto a ajuda-lo, quando você leva a sério a depressão dele, quando você não usa o transtorno dele pra machuca-lo mais ainda. Nunca diga pra um potencial suicida continuar vivendo porque vai fazer a família sofrer, ou porque vai fazer seus amigos se sentirem culpados. Mostre a ele razões pra que continue vivo por ele mesmo. Terceirizar uma razão pra viver não é algo digno, e nem é um ônus que deva ser depositado no outro. Se eu não sou mais capaz de ver no meu interior motivos pra continuar vivo, melhor não estar. A prevenção começa quando entendemos que não falar sobre o problema não vai fazer ele desaparecer, é necessário falar, é necessário estudar, é necessário prevenir de uma maneira muito mais eficaz do que está sendo feito até hoje. Prevenção ao suicídio começa quando nos é ensinado a desenvolver resiliência, resiliência é a chave pra se evitar suicídios cometidos por impulso, porque sim, muitos suicídios não são planejados e poderiam mais ainda ser evitados. Não existe uma fórmula suicida, a única coisa comum em todos é a morte, todo o resto é variante, e geralmente um suicídio é multifatorial. Nem todo depressivo é suicida, e nem todo suicídio é cometido por um depressivo. As duas coisas são separadas, mas com certa frequência coexistem, por isso é necessário um tratamento diferencial aos depressivos que são potencialmente suicidas.
Nesse meu “experimento” conheci milhares deles. Entrei em fóruns internacionais de auxílio a suicídio (sim, auxilio) e acredite, muito mais pessoas do que você imagina estão discutindo as melhores formas de morrer e planejando suas próprias mortes, a todo momento. Cabe ressaltar que o ato de suicídio é separado do pensamento de suicídio. Pensar em suicídio é algo que todo mundo faz, muito mais do que se admite. Namorar a ideia do suicídio é comum principalmente (mas não exclusivamente) entre os depressivos e com algum transtorno de personalidade. O ato que não é (ou não deveria ser) comum. Entre essas duas coisas – pensar e fazer – há toda uma base, uma teia que liga todos os motivos que fazem com que a pessoa escolha permanecer viva. O suicídio contradiz a inclinação natural do ser humano que é a autopreservação, então pra chegar ao extremo de romper todos os limites que compõe nosso instinto básico de sobrevivência, e tirar a própria vida, é porque a pessoa perdeu todos os vínculos vitais que a faziam querer continuar. Além dos suicidas que conheci nos fóruns, fiz parte de um grupo de mortes no Facebook, e lá conheci vários também. Quando eu comentei em um post que cometeria suicídio em abril desse ano (era minha data inicial, mas falhei em esperar até lá ushaus), choveu gente no meu inbox. Uns pedindo dicas de suicídio, outros pedindo ajuda, e outros querendo me ajudar. Aconselhei os que eu pude, a ajuda eu dispensei, sempre disse que estava 101% certo do que faria, mas a amizade de algumas pessoas que fiz lá, levarei comigo. Vocês foram essenciais pra eu aguentar até aqui, foram essenciais nas minhas últimas crises onde não pude contar com as pessoas que eu mais queria ter podido, não citarei nomes mas quem é sabe, em ambos os casos. Não vou ser hipócrita, deixo consignado aqui que fui a exceção à regra e que recebi apoio de MUITAS pessoas, e outras, claro, não deram a devida importância ao assunto. Mas eu sempre estive certo do que faria, então essas atitudes menos zelosas, não influenciaram na minha morte. A questão é: e se eu não estivesse certo? (como a maioria das pessoas que gritam por ajuda não estão), e se eu precisasse realmente das pessoas que eu amava e me faltaram? E se as coisas que eu li/ ouvi nas últimas semanas fossem lidas/ouvidas por alguém que estava só esperando um incentivo: ou pra morrer ou pra continuar vivo. De fato, ia dar ruim. Pessoas estão pedindo por ajuda o tempo todo e estão sendo negligenciadas com a mesma frequência. Errar todos erramos o tempo todo, eu nasci errado e vou morrer errando. Mas quando se trata de vidas, erros podem ser fatais, a gente nunca sabe qual o limite do outro. A gente nunca sabe quanto peso temos na vida do outro, a gente nunca sabe como uma palavra dita de maneira ríspida ou de maneira gentil pode influenciar nas decisões e na vida de uma pessoa.
Sou grato a ambos os tipos, pois uns me fizeram ver o quanto a humanidade está egoísta e outros me fizeram ver que uma minoria ainda é capaz de ter empatia. Essa minoria, na minha concepção, não é capaz de salvar o mundo do caos que ele se tornou, não vou ser utópico, tudo só tende a piorar. Mas o que eu escrevi até aqui não se trata de salvar o mundo, e sim de cuidar daquela pessoa que está do seu lado no seu dia-a-dia, nada impossível, nada heróico, apenas humano. Como diria meu 2º escritor favorito (o 1º é Pessoa), Charles Bukowski: “a gente começa a salvar a humanidade salvando uma pessoa de cada vez; todo o resto é delírio romântico ou político”.
A quem se deu o trabalho de ler esse TCC até aqui (ufa kkkk), eu te desejo que sua humanidade seja renovada a cada dia. Eu espero que você não tenha que perder seu filho para entender que a sua religiosidade exacerbada e sua imposição disso á ele não funciona, projetar nele seu ideal de vida também não, espero que entenda que amá-lo somente enquanto ele está disposto a ser o que você quer, não é amor… porque amor com cláusulas de condição pode ser tudo, menos amor. Eu espero que você não tenha que perder um amigo para perceber o quão bom ele era pra você, o quão ele se esforçou para tentar manter ou recuperar sua amizade, mesmo quando ele não estava bem consigo mesmo e com o mundo, mas você não se importou… simplesmente preferiu jogar fora o que você mesmo disse ser tão importante um dia – mas eu te entendo, afinal falar que é, é fácil, difícil mesmo é ser… falar “eu estarei sempre aqui pra você” é fácil, difícil mesmo é estar. E eu cansei de ser, cansei de estar. Eu espero, de coração, que você não tenha que perder o amor da sua vida enquanto busca desenfreadamente se curar onde tuas cicatrizes tiveram origem, porque ele não tem culpa disso (e nem você), mas é que independente de culpas, quando o arrependimento bate ele corrói, e geralmente ele chega tarde demais, e vai por mim: nada é pior do que tarde demais.
Hoje eu morro engasgado (literalmente kkk) com todo amor que tentei dar aos outros e que não souberam (ou não quiseram) receber, porque eu fui daquele tipo de pessoa que tenta até o ultimo, eu tentava por mim e pelo outro, tentava até sangrar minha alma, então todas as pessoas que me perderam em vida, foi única e exclusivamente porque quiseram e não por falta de eu querer ficar. Mas agora eu cansei de tentar ficar. Faço aqui um “mea culpa” e isento a minha família dessa parte, pois aqui quem já não conseguia mais tentar dar/receber amor era eu, que em razão de conflitos passados criei uma certa barreira. Meu pedido de perdão, em especial a minha avó que nunca desistiu de mim.
A mim mesmo, desejo que eu encontre a paz como nunca tive. Meu maior desejo nos últimos meses (ou anos) é parar de sentir… e não é somente os sentimentos ruins, é uma total ausência do sentir. Quero crer que isso está prestes a acontecer, e embora haja opiniões controvérsias, ninguém nunca voltou pra contar. O meu adeus aos que ficam…

PS: meu último desejo é ser cremado, e NÃO quero ter velório. Sério, é pavorosa a ideia de pessoas envolta do meu cadáver, lamentando o que eu considero ter sido minha melhor decisão

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